Nº. 295 – João Soren, pastor e musicista – 06 jan 1985, p. 2

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Nº. 295 – João Soren, pastor e musicista – 06 jan 1985, p. 2

Música – Nº. 295

João Soren, pastor e musicista

Rolando de Nassáu

 

Em João Soren vemos não somente o venerando pastor da Primeira Igreja Batista do Rio, que em 1º. de janeiro de 1985 completa 50 anos de ministério à frente dessa grei; o líder invulgar que exerceu os mais importantes cargos denominacionais e solucionou as mais graves crises em nossa Denominação; o respeitável catedrático no seminário batista no Rio de Janeiro (1946-1978), onde foi magnânimo reitor (1969-1971); o notável orador sacro, cuja voz autorizada (nunca autoritária) e melíflua (jamais pusilânime) foi ouvida nos congressos da Aliança Batista em Londres (1955) e Tóquio (1970), o que dá a medida de sua envergadura nativa e de seu alcance mundial, e que, no dizer de Ebenézer Soares Ferreira, “é o Spurgeon … é a eloquência elegante … é o primor pela postura e a graciosidade no manejo do vernáculo”; é, acrescentamos, um pregador atualizado, sem socorrer-se do jargão, e compacto, cuja linguagem simples e diáfana consegue revelar profundos conceitos teológicos; o intelectual polivalente que trabalhou como vernaculista na revisão da Bíblia, pertence à Academia Brasileira Evangélica de Letras e foi agraciado com títulos universitários pelo “Georgetown” (1955) e “William Jewell” (1960); o heróico capelão que acompanhou e assistiu a Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália durante o final da Segunda Guerra Mundial (1944-1945), tendo sido condecorado com a “Cruz de Combate”, pelo exército brasileiro, e a “Silver Star”, pelo americano; o cidadão exemplar que participa do Conselho de Diretores do Hospital Evangélico e foi honrado pelas assembléias legislativas dos estados da Guanabara (1974) e do Rio de Janeiro (1973) e pelo governo da Libéria (1971).

Em João Soren vemos também o musicista multiface; não é uma estrela solitária, mas em torno dele gravitam muitos batistas com dons musicais. Nos últimos 50 anos, muitos músicos receberam, dentro e fora da Primeira Igreja, o incentivo, a orientação e a influência do pastor Soren.

Minha saudosa mãe, Frederica Torres, contava-me que o jovem João Soren era exímio violinista; juntamente com Oswaldo Ronis, Frederico Vitols, Alexandre Klavin e Martinho Janson, no início da década de 30, quando a Primeira Igreja tinha menos de 500 membros, Soren com o seu violino acompanhava o canto congregacional. Assumindo o pastorado, sempre apreciou e conferiu a devida importância à música instrumental. Lembramo-nos de que, em 1958, o jovem violinista Hélio Dias Ribeiro foi incentivado a tocar o “Adágio” de uma sonata de Haendel, e, no Natal de 1974, uma cantata teve o acompanhamento de flautas, violinos, violoncelos, fagote, clarineta, trompa e oboé. O pastor Soren recentemente apoiou a formação do conjunto instrumental “Aulos”, dirigido pelo seu neto Amaru, que conta com uma vintena de músicos (flautas-doces, trompa, instrumentos de cordas e de percussão) para a execução de obras eruditas (Byrd, Scheidt, Caldara, Telemann, Haendel, Mendelssohn, Reger e outros).

Mas tem sido o órgão o instrumento que melhor tem contribuído para a divulgação da música sacra erudita: peças de Bach, Haendel, Vivaldi, Praetorius, Pasquini, Corelli, Daquin. Mozart, Mendelssohn, Gounod, Brahms, Reger, Saint-Saens, Widor, Guilmant, Vierne e Dubois são comumente executadas na Primeira Igreja pelos organistas Nicéa Miranda Soren, Betty Antunes de Oliveira, Marília Soren Sosa, Leuzí Soares Figueira, Dirajáia Soren, Frederico Egger, Edson Lopes Elias, Domitila Ballesteros, Sérgio Presgrave, Eliane Carlita de Andrade e Amaru Sosa Soren.

O “Hammond” foi inventado em 1935, e já em 1940 o Pastor Soren substituía o harmônio (que em pouco tempo seria abafado pelo murmúrio da congregação e pelo barulho dos bondes que trafegavam diante do templo) pelo órgão eletromagnético importado.

Soren também gostava do bel canto, que era praticado em saraus de fim-de-semana, no Salão “F.F.Soren”, promovidos pelo Departamento Artístico e Cultural da Assembléia das Uniões de Treinamento: a soprano Eunice Lima e o tenor Evandro Azevedo cantavam trechos de óperas de Verdi e de Puccini, acompanhados pela pianista Marília Soren, que, por sua vez, como meio-soprano, interpretava árias de Cimarosa, Haendel, Gluck, Saint-Saens e Verdi.

De nossa parte, apreciávamos a soprano Gláucia Simas Campelo na execução de trechos de “O Filho Pródigo”, de Debussy, e da “Paixão, segundo São Mateus”, de Bach.

Em 1957 Soren patrocinou, para comemorar o quinto aniversário da Associação Coral Evangélica do Rio de Janeiro, uma Noite de Arte, com a participação dos mais destacados artistas evangélicos da antiga Capital Federal, liderados por Levino Alcântara e Heitor Argolo.

Naquela época, além da ACE brilhava no cenário artístico evangélico carioca o Coral Excelsior, que, ainda no salão social da Primeira Igreja, apresentou uma audição de música folclórica, sob a regência de Guilherme Loureiro.

Desse compositor, no santuário da Igreja, em outubro de 1953, foi apresentada a ópera sacra “Jerusalém, a Canaan Celeste”, tendo atuado o baixo Luiz Nascimento, a soprano Alaíde de Andrade, o tenor Evandro Azevedo, a soprano Olívia Magalhães, a ensaiadora Eudora Pitrowsky Salles e a organista Dirajáia Soren (ver: “O Crisol”, dez 53, e “O Jornal Batista”, 25 fev 54).

Em abril de 1955 Soren foi o narrador de uma audição de música sacra erudita (trechos de obras de Bach, Haendel, Francisco Martins e Mozart) para comemorar a paixão, morte e ressurreição de Jesus, apresentada pela soprano Gláucia Simas, contralto Marília Soren, tenor Edson Salles, baixos Eliézer Gomes e Daniel Pinheiro, acompanhados pela organista Dirajáia Soren e regidos por Heitor Argolo.

Cremos que a mais importante iniciativa de João Soren para o aprimoramento do canto coral sacro foi a única apresentação no Rio de Janeiro, em setembro de 1955, do célebre “Thomanerchor” (coro infanto-juvenil da igreja de São Tomás, em Leipzig, que foi dirigido durante 27 anos por Bach), que interpretou, além de peças de Bruckner, Reger, David e Kodály, o moteto “Jesus, minha alegria”, de Bach, sob a regência de Gunther Ramin. Essa audição deve ter inspirado a Dorivil de Souza a criação de um coro infanto-juvenil que pudesse cantar obras de alto nível.

Memoráveis foram as audições do Coro da Igreja realizadas em 30 de outubro de 1955, 30 de junho de 1957, 26 de dezembro de 1965 e 24 de dezembro de 1972, comentadas nestas colunas. Atualmente, na Primeira Igreja apresentam-se, sob os cuidados do pastor Soren, os seguintes coros: “Eclésia” (misto), “Nicéa Soren” (jovens), “Dominus” (masculino), “Hosana” (feminino) e “Coreutas” (falado).

Além de músico e incentivador de músicos, João Soren cultiva o canto congregacional; hinógrafo inspirado, é autor de oito hinos: “No caminho do Senhor”, “A mão que me conduz”, “Com Jesus”, “Cristo maravilhoso”, “Fala e não te cales”, “Ó povo, vede a luz”, “O monte do Senhor” e “Olhando para Cristo”; os dois últimos com música de C.Austin Miles.

Em menos de dez anos, o hino nº. 579 tornou-se indispensável nas comemorações do “Dia do Pastor Batista”.

 

Como musicista, Soren tem todos os pastores ao seu lado. Como pastor, tem a gratidão de todos os músicos batistas!

 

(Publicado em “O Jornal Batista”, de 06 de janeiro de 1985, pp.02 e 10).

 

2018-02-21T14:29:46+00:00 By |Personalidades|